Livro publicado pelo Ideflor-bio registra a ocorrência do mutum-pinima em terra indígena

Lançado oficialmente em novembro de 2017, pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), através da Diretoria de Biodiversidade/Gerência de Sociobiodiversidade, o livro “Gestão ambiental e territorial da Terra Indígena Alto Rio Guamá: diagnóstico etnoambiental e etnozoneamento” trouxe um registro marcante para a ciência e para o estado do Pará: a confirmação da ocorrência do mutum-pinima (Crax fasciolata pinima), ave criticamente ameaçada de extinção que não era observada oficialmente desde o final da década de 70, levando a acreditar que ela estivesse extinta na natureza, restando apenas pouquíssimos exemplares em cativeiro.

O registro foi feito ao final de 2014, durante os trabalhos de campo realizados por uma equipe multidisciplinar, formada por pesquisadores especialistas em diversas áreas. Ao longo de vinte dias, os pesquisadores, com a participação conjunta dos indígenas, coletaram informações que compuseram o Diagnóstico Etnoambiental Participativo da Terra Indígena Alto Rio Guamá (TIARG), no qual os resultados foram sistematizados e publicados em livro.

Os pesquisadores já haviam recebido dos indígenas a indicação de que o mutum-pinima seria abundante na região do Rio Gurupi, ao sul da TIARG, onde ainda se mantêm as áreas de floresta mais bem preservadas da terra indígena. De acordo com eles, a ave seria mais abundante, inclusive, do que o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa).

Enquanto a equipe que estudava os mamíferos da Terra Indígena Alto Rio Guamá (TIARG) realizava seus estudos nas matas próximas à aldeia Canindé, escutaram o canto de um macho adulto do mutum-pinima. Além disso, partes de exemplares do mutum, como cabeça, penas e penacho, já haviam sido fotografadas dois anos antes pela equipe do projeto Conservação da Biodiversidade em Terras Indígenas, executado pela então Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas). Esses exemplares haviam sido caçados pelos indígenas, que utilizam suas penas para o artesanato e sua carne para a alimentação. Todas essas informações são apresentadas em dois capítulos do livro, que tratam das aves e das espécies ameaçadas.

A TIARG é o último grande fragmento florestal do nordeste paraense, região considerada a mais devastada e ameaçada de toda a Amazônia. Ela faz parte do centro de endemismo Belém, que também engloba a Amazônia maranhense. Nesta região, ocorrem espécies únicas, que não são encontradas em nenhuma outra parte do planeta, como o próprio mutum-pinima. Justamente por isso, a TIARG tem servido de refúgio para inúmeras espécies ameaçadas de extinção em nível estadual e nacional. Contudo, ela encontra-se altamente vulnerável, devido à falta de fiscalização de atividades ilegais que têm ocorrido em seu interior, com bastante intensidade, nos últimos anos, principalmente a extração ilegal de madeira. Além disso, toda a área central da TIARG encontra-se ocupada por não indígenas, os quais formaram vilas e povoados, contribuindo para aumentar a devastação florestal da área.

A terra indígena forma um contínuo florestal com outras terras indígenas localizadas no Maranhão, além da Reserva Biológica do Gurupi, também no estado vizinho. Apesar de apresentarem um elevado grau de devastação ambiental, como a TIARG, existe uma grande possibilidade de que o mutum-pinima ainda ocorra em todas essas unidades, o que reforça a necessidade de criação de um mosaico de áreas protegidas como forma estratégica de garantir sua conservação biológica e cultural. Medidas ainda precisam ser tomadas, visto que a devastação ambiental e a pressão de caça na região seguem a todo vapor e não é possível medir durante quanto tempo as populações das espécies ameaçadas ainda conseguirão resistir. Reforça-se a necessidade de realizar novos estudos na TIARG, a fim de monitorar as populações do mutum-pinima e de outras espécies confirmadas na área.

✎Texto: Denise Silva / Ascom Ideflor-bio


GALERIA DE FOTOS:
(Fotos: Glauber Júlio Andrade da Silva)

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