Em primeira trilha sensorial, estudantes conhecem as riquezas do Utinga por meio do tato e do olfato

“Dá pra ver no rosto deles, na expressão facial, nas gargalhadas, que eles estão gostando muito do passeio”, conta Rejane Lima, professora da Escola Estadual Astério de Campos, instituição belenense especializada no atendimento de pessoas com deficiências múltiplas, como a surdocegueira. Alunos da escola participaram, nesta terça-feira, 19, da primeira trilha sensorial realizada no Parque Estadual do Utinga.

Quatro estudantes, com variados níveis de surdocegueira, andaram pela trilha do Patauá, um percurso de aproximadamente 700 metros, no interior do Parque, considerado de nível fácil, com poucos obstáculos, mas com muitos exemplares da flora e da fauna que compõem a Unidade de Conservação.

Os estudantes foram acompanhados por professores da Escola, guias do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio) e condutor habilitado, os quais utilizaram sentidos como o tato, o olfato e até mesmo a audição para apresentar aos estudantes as árvores e plantas do local.

O Breu Branco e a Paricarana foram as grandes sensações do passeio. A árvore de Breu Branco tem uma raiz aromática, cujo cheiro forte chamou a atenção dos estudantes. Já a Paricarana é uma árvore sonora. “Quando batemos nela, ela produz um som grave, como se fosse uma árvore oca. Esse som era utilizado para comunicação pelos povos indígenas”, conta o condutor Joaquim Neto.

Apesar de possuírem variados graus de surdez, os estudantes da escola Astério de Campos sentiram a vibração da árvore pelo tato e alguns até mesmo perceberam um pouco do som, como a Lívia Santos, de 13 anos, que ficou bastante animada ao perceber o vibrar da Paricarana.

“A trilha no Utinga é um ambiente perfeito para eles, pois favorece a vivência e a interação com a natureza. Melhor do que simplesmente descrever a eles esses espaços, aqui nós conseguimos fazê-los sentir as texturas, cheiros, o ar livre e, ainda por cima, em atividades em grupo, o que só melhora o aprendizado”, conta a professora Maria José Gomes, que também acompanhou o passeio.

Durante a trilha, além do tato, os condutores também explicaram aos participantes curiosidades sobre o trajeto e o que é encontrado nele. Todas as informações foram traduzidas pelos professores em linguagem de sinal, respeitando a especificidade de cada aluno, seja com a LIBRAS tátil, em que a tradução se dá por meio do contato das mão; ou com a LIBRAS em campo reduzido, em que os sinais são feitos bem próximo do rosto, de modo que são percebidos dentro do campo de visão de pessoas com campo visual reduzido

Segundo a turismóloga do Ideflor-bio, Letícia Freitas, a visita “é uma passo importante para a inserção de pessoas com necessidades especiais, principalmente com necessidades tão específicas como a deles. É necessário que cada vez mais lugares se adéquem para recebê-los e ofereçam oportunidades de educação ambiental, turismo e lazer com acessibilidade. Esse passeio nos traz muitos aprendizados e nos mostra caminhos a seguir rumo à inclusão, mas também consolida cada vez mais o papel do Parque como um espaço de todos, literalmente”

João Batista, 51 anos, aluno da Escola Astério de Campos desde de 2013, estava se sentindo em casa. Surdo de nascença, João começou a perder a vista recentemente e, apesar de possuir um campo de visão muito limitado, aproveitou a visita ao Utinga para fazer muitas fotos no tablet que ele maneja com destreza. João, conhecido na escola por ser aventureiro, afirmou ter gostado muito do passeio e quer voltar ao Utinga mais vezes, para realizar outras atividades no Parque.

No fim da visita, os estudantes e professores ainda deram uma volta de bicicleta no Utinga. Eles utilizaram as bicicletas de dois e três lugares que estão disponíveis, diariamente, para aluguel.

O Ideflor-bio possui um programa de Educação Ambiental que oferece visitas monitoradas gratuitas no Parque Estadual do Utinga. Instituições de ensino e pesquisa, instituições públicas, projetos e organizações sociais e da sociedade civil podem solicitar o serviço mediante o preenchimento de um formulário disponível no site do Parque (www.ideflorbio.pa.gov.br/utinga). Os interessados devem ficar atentos às normas para a solicitação das visitas e preencher o formulário ao menos 10 dias antes da data desejada.

Texto: Dilermando Gadelha – Assessoria de Comunicação do Ideflor-bio

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