Ideflor-bio faz monitoramento ambiental durante a Festividade do Divino Espírito Santo, no Pesam

As manhãs acordam nubladas na Casa de Pedra. Os fogos de artifício do Seu Caroço, às 4h da madrugada, marcam o despertar de mais um dia da Festividade do Divino Espírito Santo, comemorada anualmente no Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas (Pesam), na região do Araguaia, sudeste paraense.

A Festividade, que iniciou no dia 19 e dura uma semana, finalizou neste domingo, 27, e durante o evento uma equipe técnica do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio) fez o monitoramento ambiental da Casa de Pedra, o Setor de Visitação 1 do Pesam.

O festejo é celebrado já há 30 anos por habitantes das comunidades que circundam a região do Araguaia e tem o formato de romaria. Dias antes do início oficial do evento crianças, jovens, adultos e, principalmente, senhores e senhoras entre os 60 e os 80 anos subiram a Serra das Andorinhas até a Casa de Pedra, uma formação rochosa que fica a aproximadamente 570 metros acima do nível do mar.

A Casa é uma espécie de Igreja, onde acontecem as orações diárias ao Divino Espírito Santo, terceira figura da Santíssima Trindade. As famílias que sobem a Serra ficam acampadas em uma zona plana ao redor da Casa. Lá, os romeiros montam ranchos feitos de madeira, lona ou folhas secas, e vivem de forma comunitária durante toda a semana.

O Monitoramento Ambiental feito pela Gerência da Região Administrativa do Araguaia (GRA/Ideflor-bio) auxilia na realização da Festividade, principalmente a fim de garantir a preservação do espaço do Pesam, que é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral.

“O que buscamos é trabalhar com os romeiros para que, durante o evento, eles utilizem de forma consciente os recursos naturais do espaço, evitando cortar madeira, produzir resíduos sólidos em excesso e também dar destinação adequada ao resíduo produzido, por exemplo”, conta Evandra Vilacoert, gerente da Região Administrativa do Araguaia.

Infraestrutura – Além das atividades de monitoramento e fiscalização do uso dos recursos naturais, o Ideflor-bio também realiza, durante a Festividade, cadastramento dos romeiros e ações de educação ambiental, culturais e infraestrutura na área. Uma das ações é a implantação de sistema de abastecimento de água para os acampamentos.

“Nós implantamos um sistema que traz água de uma nascente do Pesam para o acampamento. Esse sistema é formado por um motor-bomba, cerca de 800 metros de tubulação para o transporte da água e uma caixa d’água onde se armazena e distribui a água aos romeiros. A utilização desse recurso também é monitorada pela equipe”, explica Silviane Miranda, técnica do Ideflor-bio. Antes da implantação do sistema, os romeiros tinham de andar, diariamente, 800 metros para pegar água direto da nascente.

A equipe do Ideflor-bio faz, também, a análise galvanométrica do lixo produzido por acampamento participante da festa. Essa análise permite levantar dados sobre a quantidade e o tipo de resíduo produzido pelos romeiros durante a semana. “Nós comparamos esses dados com as informações dos anos anteriores, o que possibilita criar um histórico do uso da água e da produção de resíduos durante a festividade”, acrescenta Silviane Miranda.

Educação Ambiental e Cultura – Após a programação religiosa diária da Festividade, que acontece pela manhã, tarde e noite, o Ideflor-bio também organizou uma programação cultural e de educação ambiental junto aos romeiros. A programação foi voltada aos participantes de todas as idades e abordou diversos temas.

Em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), foram realizadas atividades de ginástica laboral, oficinas de desenho e pintura, produção de objetos com garrafas pet, e produção de mand

alas alusivas ao Divino Espírito Santo. Também foram realizadas palestras sobre temas como a importância da água, o bom uso dos resíduos sólidos e a biodiversidade do PESAM, especialmente as cavernas que o Parque abriga e os quelônios amazônicos que vivem na região.

Alguns dos pontos altos da programação foram os momentos lúdicos, no qual os servidores da Diretoria de Ordenamento, Educação e Descentralização da Gestão Ambiental (Diored/Semas), Marcio Eokin e Gilton Moura, dirigiram e apresentaram peças teatrais, teatro de mamelongos e a apresentação do palhaço Tio Arroz. Os momentos lúdicos fizeram sucesso entre as crianças e adultos que, em meio a gargalhadas, aprenderam um pouco mais sobre os bichos da caverna, os malefícios da queimada e os benefícios do uso consciente dos recursos naturais.

Para Gilton Moura, “essas ações lúdicas e educativas são fundamentais, pois favorecem uma proximidade com a comunidade e estabelecem discussões sobre a importância da floresta e da área conservada com os habitantes locais, jovens e adultos, apontando o papel deles na conservação da natureza. Além disso, todas essas ações mostram também pra os romeiros que eles não estão abandonados; que o Governo, por meio do Ideflor-bio e da Semas, está ao lado deles”.

Festividade – A origem da Festividade tem várias versões. Uma delas é que a Casa de Pedra foi encontrada por exploradores conhecidos como galegos na década de 60. Um agricultor da região de São Geraldo do Araguaia, Teodomiro Pereira, que participou da expedição junto com os galegos, fez, em 1974, um voto em nome de uma amiga chamada Conceição, que à época sofria de um mal com sintomas de depressão.

“Nós viemos pra cá pagar esse voto. Era para ela [Conceição] vir descalça desde a estrada de Marabá até a Casa de Pedra, um percurso de aproximadamente 6km. Ela passou mal e então nós ficamos aqui, trouxemos os animais, dormimos na terra e de manhã rezamos o terço. Depois ela ficou boa. Ai daí pra cá vieram os outros romeiros, a dona Zefona, o seu Raimundo Caroço e outros romeiros”, conta Maria Pereira, de 58 anos, romeira e filha de Teodomiro.

Dona Zefona é uma personagem central na história da Festividade do Divino Espírito Santo. A ela é reputado o início da tradição de levar a Divindade e o Estandarte na romaria e depositá-los no altar natural formado na Casa de Pedra, a partir de 1986.

Cada família de Romeiros – muitos deles acompanham a festividade desde o seu surgimento – traz, na subida, uma imagem do Divino Espírito Santo e também uma bandeira com símbolo do Divino e faixas coloridas. Essas Divindades e Bandeiras identificam as famílias de romeiros e são repassadas de geração em geração. “Esse ano nós estamos com cinco Divindades, mas já chegamos a ter 12”, conta seu Raimundo Caroço, 65, guardião das tradições da Festividade.

O ritual da Festividade conta com três momentos de oração; o levantamento e derrubada do mastro do Divino – feito de madeira e com uma bandeira do Divino Espírito Santo no topo; e o ritual de chegada das Divindades, em que as famílias que já estão no acampamento e aquelas que chegam fazem uma espécie de dança cujos passos são os movimentos entrelaçados dos Estandartes.

As orações são cantadas. Há uma música para abrir os trabalhos, há as músicas em intercessão dos mortos, há música para encerrar o dia de oração. Seu Raimundo Caroço conta que as melodias são tradicionais e foram passadas de pais para filhos. Acompanhando as letras, cantadas por diversos romeiros, mas baseadas, geralmente, em primeira e segunda voz, estão os tambores do seu Caroço e do seu Bráz, e também a sanfona do seu Lázaro.

Um outro ponto do ritual é a oração no Campo Santo, a alguns metros da Casa de Pedra. Lá estão enterrados dois filhos da dona Raimunda Araújo, 73, filha de dona Zefona. A reza no Campo Santo é feita pela parte da tarde apenas uma vez, nos últimos dias do festejo. Dona Raimunda, ajoelhada atrás do túmulo de seus filhos, chora enquanto os outros romeiros entoam o cântico: “Eu quando chego em Campo Santo, quero cantar mas não posso…”

À exceção da oração no Campo Santo, os rituais se repetem diariamente até o “derradeiro dia”, no domingo, 27, em que aconteceu a derrubada do mastro do Divino. Então, um dia depois os romeiros desmontam o acampamento, juntam seus pertences e descem a Serra, com a promessa de sempre voltar, como diz o cântico: “Se nós sê vivo para o ano, para vós nós volta a cantar…”

Texto: Dilermando Gadelha – Assessoria de Comunicação do Ideflor-bio

Festividade do Divino Espírito Santo

         

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