Feira da Biodiversidade gera frutos aos participantes

Do Quilombo Boca da Mata, no município de Salvaterra, região da Ilha do Marajó, para o maior evento de moda do País e o mais importante da América Latina: o São Paulo Fashion Week (SPFW). A artesã e técnica cultural Maria Luísa Nunes, de 61 anos, nunca imaginou que a arte que aprendeu ainda na infância, com a avó, a levaria tão longe. O convite para contar a sua história e mostrar as camisas customizadas por ela, com representação da mulher negra, no SPFW, aconteceu após a sua primeira participação na Feira da Biodiversidade, realizada duas vezes por mês pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio), no Parque Estadual do Utinga (PEUt).

Como é de costume entre as pessoas que vivem nas zonas rurais do Pará, Maria que cresceu em uma comunidade quilombola ganhou os primeiros recortes de remendos de tecidos da avó e assim foi aprendendo a modificar as roupas. “Éramos cinco irmãs. Uma ia passando a roupa pra outra e a gente modificava pra usar também. Usávamos retalhos de tecidos, linha e agulha somente”, lembra ela que é técnica cultural por formação, mas que sempre teve o artesanato como um hobby.

Maria Luísa participando da Feira da Biodiversidade. Créditos: Arquivo Pessoal/Maria Luísa

 

Maria Luísa ao centro, de vestido azul listrado, no SPFW. Créditos: Arquivo Pessoal/Maria Luísa

AMOR TECIDO – Engajada nas causas sociais de mulheres negras, em 2015 Maria participou da mobilização organizada pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa), que tinha como objetivo levar uma representação do movimento feminino do Estado para a Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília. Mas o grupo precisava de recursos para arcar com as despesas da viagem e alimentação. Foi assim que Maria teve a ideia de reunir um grupo de mulheres quilombolas e negras para customizar camisas com retalhos de tecidos africanos para vender.

Elas conseguiram vender as 80 unidades de camisas produzidas no dia do lançamento da Marcha das Mulheres, em Belém. “Ninguém era costureira, mas foram surgindo várias ideias. Produzimos um material pedagógico que trabalhava a imagem positiva da mulher negra. É um produto que tem história e memória afetiva, porque na zona rural é comum as famílias fazerem os remendos”, esclarece ela, ao ressaltar que após essa ocasião deu continuidade a produção e de forma mais profissionalizada.

Hoje esse grupo de mulheres ganhou uma identidade, sendo nomeado “Amor Tecido”. Elas se reúnem em Belém, elaboram e fazem a produção do material, de camisas masculinas e femininas, individualmente, sempre com o foco na mulher negra. A convite da Gerência de Sociobiodiversidade, Maria participou este ano pela primeira vez da Feira da Biodiversidade, no Parque do Utinga e foi a partir dessa experiência que surgiu o convite para o SPFW. “Uma moça de São Paulo estava caminhando no Parque, viu as camisas e começou a perguntar sobre o meu processo de criação. Ela pediu meu contato e, depois disso, recebi uma ligação da organização me convidando pra participar do evento. Eu não acreditei. A pessoa insistiu e disse que precisava comprar a minha passagem pra ir falar sobre o meu trabalho no evento”, lembra.

Ela embarcou para São Paulo no dia 26 abril deste ano e foi recebida por um grupo da organização do evento. “Assisti ao desfile do Ronaldo Fraga e depois contei a minha experiência. Fazemos camisas políticas, pelo enfrentamento ao feminicídio e combate ao racismo. Pra mim foi uma aula estar lá. Agradeço ao Ideflor, porque a Feira está nos abrindo muitas portas. Estar na feira é levar alimento pra nossa casa. A feira é uma atuação coletiva. Fui representar a todos”, pondera.

FEIRA – Na manhã da última terça-feira (07), a Gerência da Região Administrativa de Belém (GRB), vinculada à Diretoria de Gestão e Monitoramento das Unidades de Conservação (DGMUC) do Ideflor-bio, realizou a primeira reunião de procedimentos para nortear a realização da Feira da Biodiversidade. A próxima edição da Feira já está com data marcada para ocorrer no dia 18 deste mês, das 7h às 13h, no Parque do Utinga.

Na ocasião da reunião, a presidente do Ideflor-Bio, Karla Bengtson, foi agraciada com uma réplica em miriti da Ararajuba, confeccionada pela artesã Edna Maria da Costa, da Flora do Marajó, e ressaltou os frutos que a iniciativa do Instituto têm gerado entre os seus participantes. “A gente consegue vislumbrar o que está acontecendo hoje e o que será germinado lá na frente. Agradecemos a todos os que estão aqui desenvolvendo seus produtos com seriedade, comprometimento, trazendo sua contribuição para o nosso Estado e de tudo o que envolve nossos povos. Vocês fazem parte da história do Ideflor”, enfatizou a presidente..

Da esquerda p/ direita: a presidente do Ideflor-Bio, Karla Bengtson, artesã Edna Maria da Costa e Ivan dos Santos, titular da GRB. Créditos: Divulgação/Ideflor-Bio

 

Texto: Pryscila Soares – Assessoria de Comunicação do Ideflor-Bio.

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