Projetos no Parque do Utinga mantém a natureza protegida em meio à pandemia do novo coronavírus

As Unidades de Conservação da Natureza são relíquias da biodiversidade e guardiãs de amostras representativas dos ecossistemas, fundamentais para a manutenção do equilíbrio ecológico. Muitos exemplares estão ao nosso redor, mas por vezes não recebem o devido valor. Ao parar em um sinal de trânsito nas grandes cidades, nas quais predominam o concreto e o asfalto, onde houver uma árvore plantada, uma praça, um bosque ou um parque, se prestarmos atenção, é possível ouvir o canto dos pássaros e contemplar as exuberantes cores das flores. A natureza persiste e pulsa, com todos os seus encantos e segredos, mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus que o mundo todo enfrenta.

Por recomendação das autoridades de saúde e dos governantes, a circulação pelos espaços públicos deve ser evitada para que o vírus não se prolifere e, consequentemente, contamine mais pessoas. Integrando um corredor ecológico em plena área urbana da capital paraense, o Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna, no bairro Curió-Utinga, é hoje um dos principais espaços turísticos da cidade, onde o visitante pode fazer caminhadas, trilhas, andar de bicicleta, se aventurar no rapel, tirolesa, boia cross ou simplesmente contemplar a natureza.

Além do Parque, outras áreas fazem parte desse corredor florestal dentro da área urbana, como o espaço pertencente à Embrapa Amazônia Oriental e outras duas Unidades de Conservação Estaduais: a Área de Proteção Ambiental da Região Metropolitana de Belém (APA Belém) e o Refúgio de Vida Silvestre Metrópole da Amazônia, que abrange quatro municípios da RMB: Ananindeua, Benevides, Marituba e Santa Isabel do Pará. Juntas, essas áreas garantem a proteção de espécies da fauna e flora e um maior fluxo de biodiversidade.

Visitação – Para a segurança de todos, o Parque do Utinga permanece fechado desde o dia 21 de março deste ano, quando foi suspensa a atividade de visitação. A medida atende ao Decreto nº 609 do Governo do Estado do Pará, de 16 de março de 2020, e à Portaria nº 248 do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), de 24 de março de 2020, que suspendeu por tempo indeterminado a visitação em todas as 26 UCs Estaduais geridas pelo órgão, como medida de enfrentamento à pandemia da covid-19.

Somente atividades essenciais continuaram em andamento nas UCs. Entre elas estão a pesquisa científica e o Projeto “Reintrodução e Monitoramento das Ararajubas em Unidades de Conservação da RMB – Belém Mais Linda!”. Realizado no Parque, tem como objetivo devolver à natureza e monitorar espécimes de ararajuba (Guaruba guarouba). É uma ave da família dos psitacídeos (a mesma dos papagaios) que estava extinta localmente na Região Metropolitana de Belém e não era avistada em vida livre nos céus dessa área desde as décadas de 1960-1970.

Observação – Soltos na natureza e sem a habitual rotina de visitação pública, alguns animais estão se deslocando para além das áreas de floresta e usando o calçamento e áreas urbanizadas do Parque para circular. “Eles passaram a ocupar as áreas abertas que outrora os visitantes utilizavam para ter contato com a natureza”, reforçou a bióloga do Ideflor-bio, Renata Emin. Essa mudança de comportamento dos animais foi observada e registrada entre os meses de março e abril, por biólogos e pesquisadores que atuam com projetos para resguardar a fauna e flora do Utinga. Além das ararajubas, já foram avistadas espécies como um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), jibóia (Boa constrictor), quati (Nasua nasua), teiú (Tupinambis teguixin), preguiça-de-bentinho (Bradypus tridactylus), Gavião carijó (Rupornis magnirostris) e outros.

“Não é incomum avistarmos as capivaras em grandes bandos, de seis a sete indivíduos, com vários filhotes, pastando as margens da pista principal”, disse o biólogo Leonardo Magalhães. Além disso, foram feitos registros de macaco-de-cheiro, tamanduais e várias serpentes nos arredores das matas que compõe o Parque. “Até mesmo um registro raro de um indivíduo de cachorro-do-mato foi feito por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. É a natureza ocupando o espaço deixado com a diminuição do fluxo de visitação”, ponderou a gerente de Biodiversidade do Ideflor-bio, Nívia Pereira.

Pesquisa – O indivíduo de cachorro-do-mato foi registrado pelo acadêmico de ciências biológicas, Arnold Patrick. O flagrante foi feito quando o animal andava pela pista, próximo à Trilha do Patauá. A espécie já consta no Plano de Manejo do Parque. “Isso demonstra que a pesquisa dentro das UCs é fundamental. É através dela que a gente consegue comprovar a importância desses fragmentos florestais para conservação da fauna e flora”, ressaltou Arnold, que é bolsista de iniciação científica (PIBIC) do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e atua com pesquisa no Parque, tendo como orientador o pesquisador Dr. Leandro Ferreira.

Coordenador de Botânica do Museu Goeldi, Leandro Ferreira é responsável pela implantação de três parcelas permanentes de monitoramento da vegetação da floresta de terra firme do Parque do Utinga. A cada visita, ele afirma que sempre encontra surpresas na UC. “O cachorro-do-mato foi avistado próximo ao fragmento florestal na Trilha do Patauá, onde o projeto implantou uma das três parcelas permanentes de vegetação. Isso mostra que devemos continuar nossos esforços para consolidar a pesquisa dentro do Parque, contribuindo para a conservação da flora e fauna em longo prazo”, destacou o pesquisador.

Quando a pandemia do novo coronavírus estiver controlada e a visitação pública ao Parque do Utinga for retomada devemos todos lembrar que as Unidades de Conservação resguardam remanescentes da biodiversidade da Região Metropolitana. É a casa e o habitat de muitas espécies de animais e de vegetais únicos, que um dia já ocuparam áreas bem maiores do que ocupam atualmente, conforme ressaltou o diretor de Gestão da Biodiversidade do Ideflor-bio, Crisomar Lobato. “Respeitar a natureza é respeitar a vida. Contemple e admire, mas não se esqueça de preservá-la e agradecer, pois ela nos fornece muitos serviços essenciais como ar e água, entre muitas outras coisas que não têm preço”, comentou o diretor.

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