Ideflor-Bio conhece na Ufra tecnologia inédita que transforma caroço de açaí em papel sustentável

A agenda incluiu a apresentação do AmazonCel – Laboratório de Celulose da Amazônia – onde é produzido papel a partir da fibra do caroço do açaí

Com o objetivo de conhecer de perto projetos desenvolvidos por estudantes e pesquisadores que dialogam diretamente com as ações do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), o presidente do órgão ambiental, Nilson Pinto, visitou a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). A agenda incluiu a apresentação do AmazonCel – Laboratório de Celulose da Amazônia – onde é produzido papel a partir da fibra do caroço do açaí.

Coordenado pela professora Lina Bufalino, o projeto nasceu a partir da análise da composição do resíduo do açaí. Segundo ela, o primeiro passo foi fracionar o caroço em duas partes: a semente interna e as fibras superficiais. “Enquanto a semente interna tem potencial para produção de biocarvões e bioenergia, as fibras superficiais apresentam grande potencial para o desenvolvimento de bioprodutos”, explica. A partir dessa constatação, surgiu a ideia de converter as fibras em papel, com foco na produção de embalagens sustentáveis.

O AmazonCel foi estruturado a partir de financiamento da Fundação de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), obtido em 2021. Inaugurado em junho de 2024, o laboratório é o primeiro do Pará e da região Amazônica dedicado à produção de celulose nesse contexto, sendo considerado um dos mais modernos do Brasil na área. Em 2022, o grupo retirou do laboratório o primeiro protótipo de papel 100% feito de resíduo do açaí, apelidado de “papelçaí”.

Valor agregado – Além de ser um dos principais símbolos da cultura alimentar amazônica, o açaí é um dos produtos de destaque na economia paraense. Dados da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) apontam que, somente no primeiro quadrimestre de 2024, o Pará exportou 4,2 mil toneladas do fruto, mantendo a liderança nacional na produção. Entretanto, apenas 20% do fruto corresponde à polpa consumida; os outros 80% transformam-se em resíduo, principalmente o caroço — um passivo ambiental ainda sem destinação adequada em muitas áreas urbanas.

É nesse cenário que o projeto ganha relevância ambiental. “Se formos pensar que em um único fruto somente 20% é a polpa aproveitada para consumo, temos 80% de resíduo. É um quantitativo muito alto”, ressalta Bufalino. A valorização da fibra do caroço representa estímulo à redução do descarte inadequado e pode contribuir para minimizar problemas de poluição em Belém e em outras cidades amazônicas, além de sinalizar uma possível substituição de embalagens plásticas derivadas de combustíveis fósseis.

Tecnologia atrelada ao meio ambiente

Atualmente, o projeto de otimização da produção dos papéis 100% de resíduo do açaí segue até junho de 2026. O laboratório, no entanto, já desenvolveu 12 tipos diferentes de papéis, com aplicações que vão além das embalagens, incluindo produtos de valor estético, como papéis para presentes e convites. Segundo a coordenadora, o estágio tecnológico é avançado, faltando apenas o escalonamento da produção para folhas maiores que possam ser convertidas em biobags, caixas e outros itens comercializáveis.

A produção do papel envolve uma linha com oito equipamentos e pode ser concluída em cerca de três dias. O processo começa com a polpação, etapa de cozimento em alta temperatura e pressão para isolar a celulose. Em seguida, há a depuração, o refino — que aumenta a resistência das fibras — e a formação da folha, com uso de prensa específica. Paralelamente, os pesquisadores realizam testes de resistência mecânica e de contato com água para avaliar a durabilidade do material.

O projeto também investiga a incorporação de óleos amazônicos, como copaíba e andiroba, que podem conferir propriedades antifúngicas e antibacterianas ao papel, ampliando seu potencial de uso nas indústrias cosmética e farmacêutica. A expectativa é avançar com o uso de nanotecnologia, a partir da chegada de um nanofibrilador ao laboratório, além de expandir os estudos para outras matérias-primas regionais, como miriti, cipó titica e paricá.

Parceria – Durante a visita, Nilson Pinto também se reuniu com a reitora pró-tempore da Ufra, Janae Gonçalves e o corpo técnico da instituição para discutir o planejamento conjunto de ações previstas no Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado no final de 2025 entre as duas instituições. O objetivo é fortalecer iniciativas que integrem ciência, inovação e políticas públicas voltadas à bioeconomia e à sustentabilidade na Amazônia.

Para o presidente do Ideflor-Bio, a aproximação institucional reforça o compromisso com a valorização do conhecimento produzido na região. “A Ufra demonstra que é possível transformar um problema ambiental em oportunidade de inovação e geração de renda. Projetos como o AmazonCel dialogam diretamente com a missão do Ideflor-Bio de promover a bioeconomia, agregar valor aos produtos da floresta e estimular soluções sustentáveis para a Amazônia”, afirmou Nilson Pinto.

A diretora do Instituto de Ciências Agrárias da Ufra, Gracialda Ferreira, destacou a importância da parceria. “A presença do Ideflor-Bio fortalece a integração entre universidade e gestão pública. Quando unimos pesquisa científica, formação de estudantes e políticas ambientais, criamos caminhos concretos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, com impacto social, econômico e ambiental”, declarou.

Artigos Recentes
Rolar para cima
Pular para o conteúdo